Sobre excelência preta, racismo e o incômodo de quem não aceita ver um homem negro vencer.
A pessoa preta aprende cedo que errar custa caro.
Mas aprende, sobretudo, que acertar nunca garante abrigo.
Hugo Souza pegou três pênaltis no mesmo jogo. Três. Não é metáfora, é estatística. Em qualquer roteiro justo, isso encerraria a história: herói da noite, elogio unânime, silêncio respeitoso da arquibancada.
Não foi o caso.
Ao sair de campo, Hugo virou alvo de racismo por parte de torcedores da Associação Portuguesa de Desportos. Não foi provocação esportiva. Não foi crítica de jogo. Foi tentativa de redução. De enquadramento. De lembrar que, para alguns, um homem negro não pode ocupar o centro da cena nem quando decide tudo.

E o ataque não parou no estádio.
Nas redes sociais e em parte da mídia, a violência veio de outro jeito, mais aceitável, mais educada. Disseram que ele “se aparece demais”. Que “se acha”. Que exagera. Tudo isso apenas por fazer o próprio trabalho e fazê-lo muito bem.
Não é um caso isolado. Basta lembrar de Vinícius Júnior: decisivo, campeão, um dos melhores do mundo e ainda assim tratado como exagerado, provocador, inconveniente. No futebol, quando o corpo é preto, até a excelência precisa pedir licença.
Talvez por isso a frase de Criolo siga tão atual: “uns preferem morrer ao ver um preto vencer”. Não é metáfora exagerada. É diagnóstico. O incômodo não está no erro está na vitória.
É assim que a régua muda.
Quando o jogador é preto, a confiança vira arrogância. A comemoração vira excesso. A excelência vira suspeita. O que em uns é personalidade, em outros vira defeito. O que em uns é liderança, em outros vira incômodo.
Três pênaltis defendidos não bastaram para interromper o julgamento. Pelo contrário: pareceram intensificá-lo. Porque o racismo não reage só ao erro. Ele reage, principalmente, à vitória. Àquela vitória que desorganiza o roteiro esperado, que quebra a hierarquia silenciosa que muita gente ainda quer preservar.
No futebol brasileiro, o jogador preto precisa ser impecável. Precisa decidir. Precisa repetir. Precisa provar de novo. E, mesmo assim, ainda é cobrado por como anda, como fala, como celebra e por existir.
O racismo não vive apenas no xingamento explícito. Ele mora também na crítica desproporcional, no incômodo com a autoconfiança, na tentativa constante de empurrar o preto para um lugar menor.
Hugo fechou o gol.
Mas, como quase sempre acontece, o alvo continuou sendo ele.

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