Se o palco virasse um rolê na quebrada?

Assisti a Somos Periferia com o corpo aberto. Ri, vibrei, me emocionei. É divertido, pulsante, mas também atravessa. Em cena, a juventude periférica não pede licença nem explicação: ocupa. O espetáculo não tenta traduzir a quebrada para quem olha de fora — fala a partir dela. E talvez por isso funcione tão bem: porque reconhece, acolhe e devolve potência.

Criado em colaboração pelo Coletivo Coletores e pelo Circo Teatro Palombar, Somos Periferia transforma circo, rap, funk, slam, dança e imagem em uma experiência que é manifesto e festa ao mesmo tempo. Não há personagens fixos nem narrativa linear. O que existe é um mosaico de vivências da juventude da Cidade Tiradentes — seus corres, afetos, sonhos e desafios. A periferia aparece como pensamento, invenção e futuro.

Quando a imagem vira corpo de cena

A tecnologia aqui não é enfeite. As projeções respiram com os artistas, interferem no ritmo, constroem sentido. A imagem entra como corpo, dialoga com a música, com a palavra e com o movimento.

Para Flávio Camargo, a virada está no ponto de vista. “Quando a narrativa visual é construída por quem vive o território, a periferia deixa de ser objeto de olhar e passa a ser sujeito da imagem.” O que costuma ser lido como ruína ou improviso se revela como estratégia, invenção e continuidade. A palavra — no pixo, no rap, no slam, na placa de comércio — ganha densidade e estrutura o espaço como gesto político e estético.

Toni Baptiste conta que o processo nasce da escuta e da horizontalidade. As visualidades surgem do caminhar pelo bairro: bares, padarias, terminal de ônibus, praças e ruas; do fluxo do funk, do futebol de várzea, da capoeira, da escola de samba. O cenário, feito de andaimes e diferentes níveis, evoca uma cidade em construção. Não precariedade, mas processo. “A tecnologia vira espaço poético para materializar sonhos e criar encantamento com a própria realidade da periferia”, resume.

Juventude como sujeito, público como parte

Na direção do espetáculo, Adriano Mauriz explica que Somos Periferia nasce do desejo de expressar a poética de jovens artistas que cresceram e vivem no território. Não “o” jovem periférico, mas uma diversidade de experiências. A mistura de linguagens é também afirmação: a periferia não cabe numa categoria só.

O encontro com o público da quebrada é central. Estrear “em casa” muda tudo — a vibração, o reconhecimento, o sentimento de pertencimento. “O circo que a gente acredita não é o do impossível inalcançável, mas aquele em que o público se sente parte”, diz Adriano. Quando alguém se vê em cena, algo desloca. A arte vira espelho e horizonte. O jovem se reconhece bonito, potente, sem limite.

Criar, produzir e difundir a partir do território é princípio. Circular com o espetáculo também. Quando a obra viaja, leva junto a Cidade Tiradentes — e mostra que não deve nada a ninguém. Representar não é reduzir; é exaltar. E exaltar transforma.

Volto pra casa com isso…

Saí do teatro com a sensação de que o palco pode, sim, virar um rolê na quebrada — sem legenda, sem rótulo, com complexidade. Somos Periferia não explica: afirma. E, ao afirmar, convida quem assiste a se reconhecer como parte de uma construção coletiva em movimento.

A periferia não está pedindo espaço — ela já está em cena, criando o próprio futuro.

Serviço
O espetáculo está em cartaz no SESC Belenzinho nos dias 21 e 22 de fevereiro.
Na Cidade Tiradentes, a apresentação acontece no dia 28.

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Amante da cultura, Designer, Comunicador e Diretor Criativo da Black Pipe!!

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