Mulheres no RAP: entrevista com As Lavadeiras

Diretamente de Mogi das Cruzes desde 2014, Karen Dias e Sarah Key formam o grupo “As Lavadeiras”. Forrada de maracatu e raízes da cultura popular brasileira a dupla só mostra que mulher não tem limitação. Inspiradas em suas vivências pessoais e em seus cotidianos na periferia de Mogi, o grupo aborda questões sociais sobre a mulher, dando real sentido ao significado da palavra rap: rima e poesia.
Envolvidas em diversos projetos As Lavadeiras tem crescido com uma grande abertura na cena do hip hop dando voz e mais representatividade as mulheres, e também inserindo elementos musicais fortes juntamente as danças populares como samba de coco, ciranda e etc.
O que mais me motivou a entrevista-las foi a representação artística das músicas, você consegue sentir cada palavra e tudo que elas querem passar em cada som tocado em seus shows.

Enfim, deixo aqui pra vocês o bate papo que tive com essas duas mulheres incríveis, a conversa foi longa, mas confiem em mim, vale cada segundo.

BPE: Como começou o envolvimento de vocês no hip hop? Como vocês se conheceram?

Sarah: “Me chamo Sarah Key de Almeida, com três décadas de história pra contar, nascida e criada em Mogi das Cruzes, com mãe solo e irmã mais velha a me criar, sangue indígena herdado da bisa na veia a pulsar, um pai de criação e uma mãe preta a me amamentar, deve ser daí o som do tambor que no meu peito eu sinto ecoar.
No chão de terra fui batizada, na linha dos preto velho abençoada, fé pra mim é energia movimentada, tudo aquilo que me motiva a levantar cedo da cama e sair de casa, salve padrinhos Cambinda guardiões por quem sou afilhada.
De tudo na vida, a música era a expressão que me acessava ao fundo, através dela me reconheci e pude reconhecer o mundo, o rap me ensinou a essência de luta no estilo vagabundo.

Quando me mudei pra Vila Brasileira a 19 anos atrás, a quebrada exalava violência e problemas sociais, comecei a ouvir aquele som que falava sobre meus dramas pessoais, e retratava a realidade que me cercava com rimas reais.
Em 2008 entrei para o Suburbaque, grupo percussivo de nossa cidade, onde senti pela primeira vez o Maracatu e a força de um baque, que me conectou com outro grupo de nossa cidade, o Jabuticaqui, que pesquisa as culturas regionais do Maranhão, coco/ciranda/boi e cacuriá viram canção, de saia rodada, flor no cabelo e tambor na mão, a importância de reconhecer nossa raíz e tradição. Me ensinaram com muito amor e verdade, a porta de acesso pra essa cultura que diz sobre luta, fé e coragem, sobretudo muita vontade e sempre com respeito a ancestralidade.

Pelo Contadores de Mentira, grupo de teatro formado pela pior extirpe das extirpes ruins residentes em Suzano, fui convidada a fazer uma ponta, vivência que se estendeu por uns três anos, com eles aprendi a arte como ofício e não só como entretenimento mundano, exercendo com responsabilidade aquilo tudo que mais amo.
Mais que atuar, ser atuadora. Mais que cantar, ser militante, a rua vai te cobrar tudo que sair dos falantes.

Em 2013 conheci o retiro de meditação Vipassana, compreendi a lei da impermanência: Bom ou ruim, TUDO passa. Aprendi a me relacionar com a realidade presente, toda doença vem e fora mais a cura vem de dentro.  Que todos os seres sejam felizes, estejam em paz e se libertem.

Inaugurou uma Casa de hip-hop em Mogi, logo me  inscrevi pra aula  de m.c,  oficina de rima que virou oficina das mina, conteúdo, vivência e disciplina.
Já havia tido uns encontros com Karen pela nossa cidade, o poder da palavra sua maior capacidade, esperava de um homem, mais foi nela que reconheci minha metade. Enfrentamos até aqui muitos altos e baixos, mas aceitamos os conflitos como tratamento e quando nos reconhecemos seguimos mais fortes. Como luz e escuridão, compreendemos nossa potência em união. Dividimos mic, palco, vida, café e feijão, tudo que pedimos com intento nos é cedido, porque oramos com o coração.

Entre shows, poesias, viagens e tretas, amor, carinho, fundamento, papel  e caneta, nos encontramos nas ruas, no céu ou nas  ladeiras, no barro, no mato ou nas estrelas,  como ela costuma dizer, o encontro de duas almas: As Lavadeiras.”

Karen: “Somos de Mogi das Cruzes, nascemos e crescemos ali, de bairros próximos. Eu da Vila São Sebastião, a Sarah da Vila brasileira. Ambos bairros onde o rap sempre foi forte, por ter gente que vivia as situações que o rap retratava. Do povo trabalhador, das mães solteiras, das benzedeiras, do mundo paralelo mesmo. Eu tenho 23 anos e a Sarah 30. Eu escrevo músicas desde que me lembro existindo assim como cantar.  Meu pai era baterista e o ensaio era sempre lá em casa. Meu pai não deixava nunca eu tocar com a banda. Uma vez ele foi ao banheiro e a banda continuou tirando os instrumentos de corda. Sentei na bateria toquei e aí meu pai passou a respeitar mais.
A música na minha vida sempre foi presente. Não me lembro de muitas memórias da escola. Mas as que lembro com detalhes foram as que eu tive de escrever música ou qualquer construção desafiadora. Mas eu buscava uma profissão que tivesse nas listas convencionais. Nunca passou pela minha cabeça trabalhar com música. Era uma realidade distante. Isso até o nascimento das Lavadeiras. Tudo mudou a partir de então.

Eu prestei o Enem e ganhei uma bolsa de estudos no Mackenzie pra estudar direito. Foi uma experiência muito transformadora passar pela universidade. Sair de Mogi pra estudar  com 17 anos. Me fez conhecer um outro mundo do qual nunca havia sido parte. E vivendo alguns glamures eu assentei meu lar na minha raiz. Foi saindo de casa que me senti mais em casa ainda. Me formei, passei na OAB, mas ainda aguardo o sentido dessa profissão. Até agora só apareceram oportunidades em que a única beneficiada seria eu mesma. E o tempo é valioso pra ficar girando somente no meu círculos vicioso. Necessito jogar – me,  lançar – me. É como aprendo e repasso a vida.

As Lavadeiras Foto: Lethicia Galo
As Lavadeiras Foto: Lethicia Galo

A Sarah eu conhecia de vista, no rolê. Chegamos a fazer vivências de cultura popular no Jabutucaqui, e eu a via tocando alfaia no Suburbaque. As pessoas a achavam brava e séria. Eu sempre vi doçura nela apesar da facilidade em transformar – se em leoa rapidamente.
Em 2014 abriram as inscrições para a Oficina de Mc da Casa do Hip Hop de Mogi. A Sarah tinha me visto em uma participação com o grupo de rap mogiano Nível de Cima, que ainda existe e quem me convidou a fazer rap. Sarah e o Dj Nandes viram ali uma potência que eu mesma não via em mim. Sarah começou a mandar mensagens me chamando pra fazer a oficina. Eu achei que não pra mim. Ela insistiu e me convenceu. Na oficina apenas 2 matrículas, eu e ela. Nosso professor o Acme, integrante do Nível de Cima já citado. Foi um encontro onde lapidamos nossas potências. Na primeira semana uma música.  Na segunda 3. Mostrei a eles letras que eu havia escrito antes e em 1 mês já existia As Lavadeiras. Com nome, proposta, músicas autorais e tínhamos as instrumentais produzidas pelo Dj Nandes Castro.
Passamos a cantar em vários lugares de Mogi e região. No terceiro mês já estávamos em São Matheus quebrada da Odisséia das flores, grupo que a gente ouvia e pirava.

Então a introduzir os instrumentos pra somar na batida eletrônica. A Sarah com sua potente alfaia e sempre convidávamos pessoas pra tocar conosco. Amigos pra partilhar a alegria de levar música pro mundo.
O ano passado em julho nós lançamos nosso primeiro EP gravado no estúdio municipal de Mogi das Cruzes através de um edital. Não pagamos nada, não tínhamos como pagar. Foi um presente. A gente sempre conseguiu fazer as coisas por termos pessoas incríveis ao nosso lado. Conhecemos a fotógrafa Lethicia Galo que nos ouviu em um bar de Mogi e quis fazer nossas fotos de divulgação. Hoje somos amigas irmãs.
Ao longo desse caminhar fomos construindo pontes. Esse é a nossa maior riqueza.

Ano passado eu fui convidada a representar as mulheres no intercâmbio São Paulo – Berlin da Gangway. Tive que levantar o dinheiro das passagens em 2 meses. Como? Vivendo de rap. Com a ajuda dos irmãos que acreditam. Fizemos eventos, pessoas doaram, fizemos rifa e então conseguimos. Fui a única mulher Mc do Brasil pra lá. Fizemos oficinas, colamos nas escolas, aprendemos muito sobre as formas que o hip hop transforma. E lá conheci o Matéria Rima uma ONG que salva crianças todo dia em Diadema através do hip hop. Lá conheci o idealizador do projeto Joule Matéria Rima e lá ele disse:- Se abrir uma oportunidade no Instituto você tá dentro. E hoje estou lá há 4 meses. Sou educadora de rima e pandeiro. Mais de 60 alunos por turma e muita satisfação em estar ali interagindo com eles.

Moro em uma casa coletiva comigo mais 3 pessoas. Nessa casa a gente busca desenvolver e aprender novas formas de vida. Mais sustentável, menos depende do sistema de exploração. É nosso laboratório onde realizamos oficinas de horta, de palhaço. Qualquer um que queira passar a diante o que sabe com o encontro de quem quer aprender. Estudo terapias holísticas. Eu amo estudar e manifestar cura. Seja na voz, seja nas mãos, apenas na intenção.

Hoje As Lavadeiras é um grupo de pesquisa da cultura popular que faz o encontro do rap com essas linguagens, nossas, de matriz. Nosso show tem o repertório de umas 15 músicas. Cantamos e tocamos percussão. Rimamos e sentimos. Cada show é diferente, mas sempre forte. É um ritual em que o tambor traz todo mundo pro elemento terra e nossas vozes as levam pro elemento Ar. Tambor também é fogo e sempre há choro. As pessoas se emocionam, nós nos emocionamos. A gente não tinha noção quando eu, Sarah e Acme pensamos no nome ” As Lavadeiras” mas chamamos o elemento água pra lavarmos o emocional e o físico de quem estiver de coração aberto. Sobretudo o nosso.
Eu e Sarah temos personalidades muito diferentes e é por isso que aprendemos tanto nessa caminhada. Cada vez que temos de lidar com alguma diferença é como um renascimento. Depois disso somos outras pessoas. A gente morre e nasce todo dia nessa caminhada.

As Lavadeiras foi e ainda é nossa experiência mais transformadora de nossas vidas aqui nesse planeta.
Em 2015 a Sarah me convidou pra fazer um curso de meditação. 10 dias em silêncio, meditando quase o dia todo. Se chama vipassana, técnica que Sidarta desenvolveu para se tornar iluminado. Foi incrível. Nesse curso eu e Sarah desenvolvemos algo que levamos pra nossa vida. Nossa comunicação sem verbalização. Nós comunicamos telepaticamente. No começo nos surpreendíamos  muito, hoje em dia aceitamos, confiamos em agradecemos o presente.”

BPE: Qual foi a ideia em si de colocar o nome do grupo de “As Lavadeiras”?

As Lavadeiras: “A idéia do nome veio de forma espontânea através de uma idéia do Acme. As Lavadeiras é uma tradição de trabalho das mulheres. Que através da reunião entre elas para lavar as roupas da família exerciam seu canto. Quando surgiu a idéia nós até entramos em conflito por medo de sermos levianas. Até que ponto tínhamos envolvimento com essa realidade? A resposta veio através das nossas próprias letras e também de nossa herança ancestral. Minhas tias e minha mãe foram e são Lavadeiras e a Sarah também reconhece essa força em sua mãe que a criou sozinha. Mulher e trabalho, mulher e força.”

BPE: Uma vez ouvi que o rap ele significa liberdade de expressão total, ou seja, pode ser usado como instrumento para qualquer tipo de fala, sem se importar se isso ira efetar alguém, vocês concordam com isso?

As Lavadeiras: “Não concordamos. O hip hop surgiu para pacificar a violência na quebrada. Pra apaziguar treta de gangue. Muitas vidas foram salvas através desse movimento. É música de desenvolvimento que propõe transformação. Precisamos compreender antes de tudo nosso papel individual frente a própria existência. Se a gente lida com responsabilidade com o rap, lidamos com todo o resto. Se o rap pra nós fosse somente entretenimento e diversão da mesma forma levaríamos nossa caminhada. Não dá pra separar o ofício da vida. A postura de palco da postura frente a vida. Precisamos ficar ligadas porque somos referência pras crianças. Elas vão aos shows, elas cantam as músicas.  Estão nesse momento passando pela experiência que vai trazer bagagem pro resto da vida delas. Se não estamos conscientes de que elas são esponjas e que a gente abastece estímulo pra mente delas, estaremos falindo na tentativa de fazer algo bom com o que propomos. Não valeu de nada.”

BPE: Vocês acham que a mulher ela tem um papel diferente dentro do hip hop? E o que o papel a ser representado pela mulher é  algo mais pesado que o papel do homem?

As Lavadeiras: “A mulher tem um papel diferente em todos os âmbitos desse modelo social. A primeira transformação ocorre com a gente. Quando a gente passa a superar prisões impostas que antes eram naturalizadas. O que acaba respingando através da arte são essas vivências com a gente mesma. De repente tem uma corrente de mulheres que ouvem e que expõe as mesmas dores. Você vê que sua história, sua música e sua visão acrescenta não só no seu auto conhecimento mas interfere em quem caminha desse mesmo lado. Isso empodera, transforma. Dentro do rap os mesmos desafios mas com um exército bem munido de informações e ações. Mulheres que se libertam todos os dias com a luz do conhecimento e ajudam as outras. Assim como as lavadeiras de beira de rio, parceria, irmandade.”

BPE: Conta pra gente como foi todo processo da gravação do EP, e estamos ansiosos pra saber se vocês já estão com algum trabalho a ser lançado, como está o corre?

As Lavadeiras: “Durante a gravação do EP nós tivemos muitas surpresas desde o início. Nós ganhamos o edital na categoria rap pra gravação do EP. Durante o processo tivemos o apoio incondicional do nosso parceiro Dj Nandes Castro e diversos parceiros e parceiras. Aprendemos muito, tivemos a experiência de materializar idéias. Durante todo o processo nós tivemos muitas transformações pessoais. A vida dos 3 estava mudando drasticamente e fomos parindo essas boas novas junto do EP. Dar a luz é dolorido, envolve superação e pra nós foi exatamente isso. Após o parto já estávamos novamente grávidas. Temos mais de 10 músicas para lançar e estamos constantemente produzindo mais.  Agora depois de 3 anos de grupo, estamos observando maturidade em nosso trabalho, buscando profundidade na pesquisa mas sempre alinhando nossa caminhada aqui. Não somos só esse corpo e essas 5 músicas gravadas. Somos a junção de sonhos, de vontades. Viemos com missões individuais pra Terra e buscamos sabedoria pra harmonizar as informações. Oferecer os dons, aprender com as dificuldades e estarmos atentas às necessidades desse Planeta Terra.

Nosso próximo lançamento será a música “Ilusão Mental” produção Elton Sousa (jacareí). A música retrata algumas prisões mentais que nosso modo de vida sugestiona pra gente. Limites que nossa mente reconhece como verdadeiros mas que na verdade são programações mentais. O nosso estado presente é a nossa arma mais poderosa contra esses armaprisionamento. Quando estamos comprometidos somente com o momento presente, a dúvida, o medo, a culpa ou qualquer outro sentimento de baixa vibração não é capaz de nos arrastar. Assim, não há sofrimento.

Aqui e agora, aqui e agora.”

Agradeço muito ao grupo As Lavadeiras pelo tempo concedido para realizar essa entrevista, espero que tenham gostado! Quem quiser conhecer mais sobre o grupo e o trabalho dAs Lavadeiras, acesse o link abaixo:

https://www.facebook.com/aslavadeiras/

 

 

Gabriela Sobreira

Sobre Gabriela Sobreira

Gabriela, 25 anos, zona leste de berço, criada no punk ao rap, artesã, feminista, viciada em livros, música e tênis.
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